Rosinha, eu te amo!

Que quadro! Um triste e melancólico quadro de despedida! Uma desolação quase incontrolável, com emoções humanas feridas – feridas por espadas de perigosos gumes. Só Deus…

Assim era aquele quadro, que eu presenciava absorto e comovido, com dores dentro de mim, com dó, com pena, ali naquela humilde casa. Uma cama, um senhor idoso deitado, uma senhora já na sua avançada idade, sentada à cama… Meus queridos avós…

O silêncio foi quebrado. Naqueles minutos derradeiros, ouvi meu avô dizer:

– Rosinha, eu te amo.

Quando ouvi isto, senti em mim que ele estava feliz e sempre com aquele jeitinho infantil de tratar a Rosinha, brincando. Olhei pra ela, e vi que aquela palavra não lhe causou expressões diferentes, porque o que acontecia sim, era a sua imensa dor. O seu silêncio se derramava como as águas de um rio impetuoso.

Ele continuava:

– Rosinha, eu te amo.

Como me feria! Rosinha não reagia. Era a despedida dele. Desse jeito, sempre amando, como sempre e sempre. Desde que se conheceram…

…..
Era noite. As famílias escolhiam um dia da semana para fazerem encontros festivos noturnos. Era um costume natural. Rosinha era uma moça de interior, de família honrada, trabalhadora. Numa daquelas noites, após momentos agradáveis, de conversas entre amigos e familiares, Rosinha voltava para casa, como todos os demais. Era a que sempre carregava um pequeno lampião à querosene, para clarear o caminho de volta. Aquela luz bruxuleante mal iluminava a estrada e as matas ao redor. O povo conversando, sussurros, risos, de repente…

– Rosinha, deixa eu levar o lampiãozinho?

Ela assustou-se. Era João. Envergonhada, e sorrindo contente, deixou-o à vontade. Ele levava o lampiãozinho, com muito gosto! Feliz, feliz! A conversa porém, não se alinhava, mas… Tudo se combinava, claro! E assim, João Feliciano Teixeira da Silva começou um namoro com Rosalina Vivian, namoro esse que durou bem mais que cinqüenta ou sessenta anos! No meio da jornada deles eu nasci. Até que cheguei com eles ao derradeiro momento de uma longa existência de muito amor. Fiz parte dessa jornada feliz, de muita compreensão e muita entrega mútua, muita confiança em Deus, muita fé, muitas respostas de orações, milagres também.

Hoje fico pensando neles, e vendo os fortes laços daquele amor. Que só a morte veio romper.

Que fez que Rosinha, com o coração em pedaços, pudesse dizer ao amado:

– Vai agora que eu vou depois.

Ela estava decidida, iriam continuar vivendo com o mesmo propósito mesmo depois desta vida, e João ficou firmado em amar para sempre, e desse jeito morreu.

Meus queridos avós. Legados do meu bom Deus.

Isac Rodrigues

 

Cevide

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