A Maior Tortura (Parte I)

A maior tortura (Parte I)

Há anos na rodoviária de Porto Alegre encontrei um livro de sonetos de Florbela da Conceição Espanca. Poetisa e sonetista portuguesa (1894-1930), viveu pouco para desafogar ao mundo uma alma cansada e faminta: “A vida tem a incoerência dum sonho. E quem sabe se realmente estaremos a dormir e a sonhar e acabaremos por despertar um dia? Será a esse despertar que os católicos chamam Deus? (…) Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros… Talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto. (…) Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que se vão a seguir. Como compreender a amargura desta amargura? Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas? Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo – uma alma – se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me”. (SONETOS, Difel, 1982)

Isac Rodrigues

Cevide

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